sábado, 23 de março de 2013

ANÁLISE DO FILME ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA
sinopse
      Dirigido pelo brasileiro Fernando Meirelles do livro homônimo do escritor português José Saramago, o filme “Ensaio Sobre a Cegueira” possui elenco internacional e conta com nomes de peso como Julianne Moore, Alice Braga e Gael García Bernal. O enredo se desenvolve em uma agitada cidade não identificada, onde os habitantes são atingidos inesperadamente por uma pandemia de “cegueira branca”. A expressão refere-se aos olhos dos infectados que ficam cobertos por uma camada branca com textura leitosa. A doença atinge primeiro um oriental, dirigindo no meio de um trânsito tumultuado, e se espalha rapidamente por toda a cidade.
      A partir do momento que a doença se prolifera, os infectados são postos em quarentena, em um ambiente superlotado, onde as condições de higiene eram péssimas e a auto-estima das pessoas começou rapidamente a ser abalada até atingir condições animalescas. Os serviços públicos começam a falhar e as pessoas em geral passam a esquecer os básicos princípios que regulam uma vida civilizada e passam, simplesmente, a lutar pela própria sobrevivência. Neste momento, a história gira em torno da mulher do oftalmologista da cidade. Ela era a única pessoa não-infectada  naquele cenário caótico.
  A esposa do médico omitia esse fato, para ficar junto ao seu marido e a um grupo de outras pessoas que se juntaram pelo desespero da doença, andavam pela cidade à procura de abrigo e comida. Até que encontram um lugar para ficar e tentam restabelecer as ordens de sua vida, enquanto alimentam a esperança de que um dia a epidemia desapareça.
   O contexto do filme não é encontrar uma solução para a desconhecida doença,  mas sim refletir sobre a natureza da índole humana em uma situação extrema, em que os mais básicos sentidos físicos desaparecem das pessoas. Mais ainda, a história tenta mostrar em profundidade a essência do ser humano, que é obrigado a confiar no outro para conseguir se manter vivo.




ANÁLISE SOCIOLÓGICA DO FILME
        Ao refletir para comentar sociologicamente, “Ensaio Sobre a Cegueira”, lembrei-me do escritor tcheco Franz Kafka e sua obra máxima “A Metamorfose” que narra a história fantástica de Gregor Samsa, um caixeiro-viajante que se vê obrigado a suportar todas as despesas da família, e que certa manhã, ao acordar cedo para o trabalho, constata que se transformou em uma barata gigante (metáfora no livro que significa processo de coisificação provocado pelo sistema capitalista no comportamento humano).  
A partir desse momento, até a própria irmã que o amava incondicionalmente, passa a sentir repulsa em relação a seu aspecto e ao ambiente ocupado por ele, já que a barata sobrevive apenas  em locais imundos e nojentos. Gregor na realidade morre não somente pelo acidente que foi vítima, mas essencialmente pelo ausência de amor da família que supostamente o amava.

       Verifica-se no filme uma série de metáforas relacionadas ao comportamento contemporâneo na selva de pedra que é o convívio humano da atualidade. Tais, como desconfiança, oportunismo, luxúria, traições, barbarismos, desrespeito, conflitos internos e tudo exposto aos nossos olhos e fazemos questão de não enxergar, mesmo estando claro e nítido como a “cegueira branca”. A doença retratada no filme, não é uma cegueira biológica, mais uma cegueira social e psicológica provocada pela reputação egoísta, metódica, calculada e impessoal que atingiu em grau máximo a alma dos indivíduos.

Creio que não precisaremos atingir ao extremo como ocorreu na ficção. O exemplo é o amor, a cumplicidade e a solidariedade refletidos na postura da esposa do médico, que metaforicamente ou supostamente neutralizou-a em relação à infecção. Viva José Saramago. 

Análise Psico-Filosófica
As linhas de pensamento aqui usadas para analisar o filme serão o Racionalismo e o Empirismo, unidas a arte de perceber as sutilezas da vida, chamada pela Psicologia Multifocal de Contemplar o Belo


Ao iniciar o filme é mostrada uma cidade incrivelmente estressante e turbulenta, retratando o nosso dia-a-dia  nas cidades, onde não temos se quer um minuto  para refletir e perceber as sutilezas da vida. Logo, um acontecimento vem atona, dando inicio a ideia do filme, onde em meio ao caos dos carros um cidadão japonês acaba por perder sua visão, ficando com uma cegueira anormal, parando assim o trafego de carros na cidade. E as primeiras perguntas a surgir são  "Por que o primeiro a ficar cego é um japonês? Qual o motivo? e por que logo ali, naquele momento?". O primeiro cidadão a ficar cego é japonês pelo fato, de que o país que possui a população que mais decifra os códigos da inteligencia cientifica é exatamente o Japão.

Eles tem uma população incrivelmente inteligente quando se trata de ciência, mas quando se trata de inteligência emocional, muitos deles fracassam ao tentar decifra-lo ou compreende-lo. Não fazem ideia de como lidar com esse fato que deveria ser o mais importante de todos. Essa realidade é muito bem retrada nos filmes ou documentários onde é mostrada a relação dos cidadãos orientais com seus familiares, amigos e companheiros. É mostrado que poucos desenvolvem a capacidade de expressar suas emoções, de falar das suas sensações, aspirações, desabafar sobre suas dores, seus medos e o que mais possa lhe afligir.
Podemos ser Deuses da inteligência, mas se não formos aventureiros da emoção, seremos sempre carrascos de nós mesmos
O por que de acontecer naquele local, é para mostrar a população o que lhes acontecerá brevemente. Ao longo das cenas um homem que observava tudo o que acontecerá se oferece para "ajudar" o Japonês a chegar até sua casa. No caminho ele conta que sua cegueira foi repentina e que na verdade é branca e não escura como é o comum acontecer à aqueles que ficam cegos. Mas "por que essa cegueira é branca?" 


A verdade, é que José Saramago (o escritor) cria uma metáfora com o sentido da visão relacionada as nossas ações de descaso de não se importar com o que esta acontecendo a nossa volta. A Ciência explica que é a luz que nos permite enxergar todas as coisas que existem, entretanto, existem muitos fatos no mundo como violência, fome, injustiças, guerras, intolerância, que muitos seres humanos preferem fingir que não vêm, usando a escuridão como fuga dessas realidades. Assim sendo, o escritor resolve acender todas as luzes para seus personagens, para que eles não possam mais fugir da realidade que os cerca

Thomas Hobbes (1588-1674)
David Home (1711-1776)
Os Empiristas acreditavam que são os nossos sentidos que nos possibilitam o surgimento de ideias, que nos possibilita conhecer a  verdade sobre todas as coisas, que se não fosse nossos sentidos como a visão, nós jamais poderíamos chegar a uma verdade absoluta ou compativelmente lógica ao conhecimento. Os empiristas acreditavam que algo só pode ser verdadeiro se puder prova-lo, do contrário as teorias e palavras devem ficar apenas no anonimato.

John Locke (1632-1704)
É exatamente esse pensamento que Saramago tenta obstruir ao longo do filme, pois como podemos provar que o Amor existe? como dizer que esse sentimento é algo lógico em relação a ciência? como calcula-lo? Não são apenas os sentidos que nos fazem perceber as verdades e as coisas mais magnificas da vida, mas também a nossa capacidade de interpretar e sentir através de nossas emoções, nos desapegando ao físico e o materialismo.

Nas próximas cenas do filme começamos a perceber por quais motivos as pessoas ficam cegas. Todos aqueles que tem atitudes egoístas, intolerantes, preconceituosas e violentas são as que ficam cegas primeiro, mostrando que a doença que os esta afetando não é uma doença voltada para as ideias cientificas, mas sim pelas ideias e atitudes que nossas emoções provocam.
 Pense: Será que agora você estaria cego?

Nas cenas seguintes vemos o ladrão do carro ficando cego por suas atitude de enganar e roubar,
uma prostituta pela desvalorização da própria vida e luxúria,








até mesmo o médico interpretado por Mark Rufalo não escapa, pelo fato de ter duvidado de seu paciente que estava ficando cego.





E com o tempo toda a população daquela cidade estava ficando cega, até o ponto que os "infectados" são levados para quarentena, onde lá são posicionados a conviver uns com os outros sem nem mesmo poder ver seus rostos.
Nesse local, necessidades simples de ir ao banheiro se tornam um desafio extremo.

Um fato importante é que apenas uma cidadã não fica cega, que é a esposa do Médico. Muitos perguntam-se por que ela não ficou cega.
A cegueira atinge apenas aqueles que tomam atitudes ruins e ofensivas, mas ela fez algo que poucos fariam, ela conseguiu si doar aos outros incondicionalmente. Uma ação tão nobre e singela que a salvou do caos da cegueira.
Algumas cenas depois vemos os "pacientes" sendo solidários uns com os outros, tanto na hora de comer quanto se ajudar em qualquer outra coisa. Mas uma das pessoas conta-lhes o que esta acontecendo lá fora, as cenas mostram que o mundo passa a ter medo do desconhecido, da doença e dos infectados. Mostra que todos são tratados com violência. Mostra até o fato do trânsito, onde muitos estavam morrendo nas ruas por ficarem cegos do nada e que somente o medo  da doença poderia resolver esse problema, deixando as ruas vazias, para podermos nos conscientizar do mal que podemos causar e as vidas que podemos tirar com a nossa falta de responsabilidade.
Um das cenas mais belas e que melhor representa a visão Racionalista é a cena do rádio, quando todos ficam em volta de um simples radinho de pilha escutando uma música. Por alguns minutos, os personagens sorriem contemplando algo tão belo, lhes causando uma emoção tão grande que lhes conforta a alma.
Na visão dos Racionalistas, eles acreditavam que o conhecimento estava inato na alma. Essa é uma visão reeditada de Platão, que acreditava que nosso conhecimento estava dentro de nós mesmos e esse deveria ser desvendado para alcançarmos o Inteligível. O sentir e a emoção não podem ser explicados por completo pela ciência. Unindo esses conceitos a arte de contemplar o  belo, podemos dizer que muitas coisas que podem parecer simples de compreender, e são exatamente essas coisas que podem mudar e nos fazer valorizar nossas vidas e amar a existência de nós mesmos. Pense  bem: Quantas vezes você parou para perceber a beleza do desabrochar de uma flor? a beleza da chuva caindo  o bater de asas de um pequeno pássaro? a movimentação natural das nuvens  o vento batendo nas folhas? para refletir o quanto sua vida é importante? Essas simples ações são capazes de nos mostrar o quanto a vida é única e fascinante, mas se são pararmos para percebe-las continuaremos a dizer que a vida é um mundo cheio de coisas ruins e destrutivas, que nos matam e assassinam nossas almas.
Apesar de Saramago fazer com que todos seus personagens ficassem cegos para perceberem a beleza da vida, ainda assim ouve personagens que se mostraram aproveitadores e egoístas. Pessoas que mesmo em meio ao caos e dificuldades não deixam de se aproveitar das ocasiões em beneficio próprio (fato que realmente ocorre) Esse tipo de pessoa não percebe que tudo na vida tem um propósito, que devemos enxergar o caos como uma
oportunidade de superar nossas dificuldades e mostrar quem realmente somos e o valor que carregamos por dentro. 


Depois, esses personagens querem que os outros entreguem seus pertences, como jóias, dinheiro ou o que mais pode lhes interessar. Essa cena mostra que quando estamos "cegos" o que é material não tem mais valor algum, que o material não é o mais importante, mas sim o que somos, pois nenhum objeto é tão valioso quanto uma vida que é única e insubstituível.
Ao longo do filme é mostrado o como a cidade ficou. Virou uma terra de ninguém, onde uns não conseguem ajudar os outros , o individualismo e a sobrevivência é o mais importante. Esse mundo representa muito bem o como nossa mente é, um lugar que deveria ser um jardim intocável, mas que na verdade é uma terra sem dono.
apenas um grupo tenta sobreviver com uns ajudando os outros, dando a entender que existe salvação para aqueles que ainda valorizam a vida. Alguns minutos depois começa a chover, é uma das cenas mais importantes, onde todos percebem que algo tão simples e tão natural é lindo e  perfeito. É como se a água daquela chuva lava-se suas almas sujas de arrogância e ignorância, fazendo-lhes sentir a beleza da natureza.
Os personagens finalmente chegam a casa do Doutor e sua Esposa. Na ultima cena o japonês que foi o primeiro a ser "infectado" volta  a enxergar, ele vê o quanto todas as pessoas que estão ali a sua volta são lindas. Ele começa a trazer a esperança para todos, os demais personagens ficam felizes pois da a entender que os eles também voltaram a enxergar. Um dos personagens diz a frase mais importante de todo o filme "Agora todos voltaram a enxergar, MAS ENXERGAR DE VERDADE"
A única personagem que não ficou cega vai até a varanda e começa a pensar na vida e como ela seria dalí em diante. Que seria um mundo onde finalmente, todos conseguiram ver os outros não como uma simples forma de vida composta de carne e ossos insignificantes, mas sim, que todos são seres únicos, belos, insubstituíveis  magníficos e fascinantes. O filme da a atender que a é a personagem que fica cega no final. Mas em minha visão, ela estava "cega" desde o inicio, pois ela conseguia ver todos com outros olhos. Percebeu que todos mereciam ajuda, respeito, compreensão, carinho e amor. Coisa que somente podemos compreender quando estamos Cegos.

REFERENCIAS:
Livro: A Metamorfose (Franz Kafka)
Livro: Treinando a emoção para ser feliz (Agusto Cury)
Site: www.consciencia.org

Link Para Download do Filme: http://depositfiles.org/files/hjmu7sg4c






Um comentário: